1 de jan de 2012

Carta ao meu eu criança.

     Vi na Zero Hora hoje (mas a edição era do domingo passado, 25/12/2011) uma matéria em que pessoas nem tão reconhecidas no estado escreviam cartas pra si mesmos quando crianças. Li uma delas, escrita pelo Duca Leindecker e me sacudi. Decidi fazer uma minha também.


     Debora, 


     Não me conheces ainda e talvez nem venhas a me conhecer por inteiro um dia, mas existem algumas coisas sobre as quais eu queria conversar. A vida é longa demais e de vez em quando podes te sentir perdida e sozinha, aquieta teu coração.
     Primeiramente, aceita os nãos que a vida te dá... entendas que eles começam em casa, no amor maternal, pra que a gente aprenda que a dor de uma negativa pode ser pior do lado de fora da porta de casa. Um não sempre é incômodo, mas espernear e arrancar os cabelos não vai te ajudar. Pondera o não e tenta converter num sim. Não sabes ainda, mas uma das tuas maiores virtudes depois de velha vai ser a facilidade em manipular os outros. Ou faz melhor, tenhas humildade e aceites esse não numa boa.
     Não existem amigos, não fica sonhando nem fantasiando sobre as tuas amiguinhas da quadra. Elas tem opinião própria, assim como tu. E tu tens defeitos, assim como elas. Vai chegar o tempo de escola e vais ver o quanto o ser humano e o tempo, se bem combinados, serão implacáveis contigo. Entende que tua intolerância à frustração e a falsidade das pessoas vão te bater na cara a vida toda, então não leva a vida tão a sério pra não machucar tanto a tua cabecinha fechada.
     A verdade sempre vai dar as caras, seja ela procurada ou não, então não fica tentando arrancar água de pedras. Espera e mantem o coração tranquilo que as tuas dúvidas vão ser respondidas quando a vida achar que é melhor. Pára de tanta pergunta, menina! Sossega e observa. 
      Repito, Deborinha... não leva tua vida tão a sério, senão as dores são maiores. O choque vai ser uma constante pra ti, com esse coração tão aberto e essa cabecinha que acha que tudo é verdade. Existe mentira lá fora do teu quarto e, mesmo que ainda não saibas o que é isso, podes ter certeza que o mundo vai ser um incômodo constante pra ti.
      Te preocupa com o que é mutável em ti, não com o que não é. Não tenhas complexos porque teu nariz, orelhas e boca não são como querias. Te preocupa com o que podes mudar em ti: teu pensamento. A adolescência vai chegar e vais descobrir por observar as colegas que incômodos com as feições de rosto vão tomar proporções gigantescas e vais comemorar tua falta de complexos. Mas relaxa, tu vais te livrar disso antes do que imaginas, com 8 anos. Não aceita que te digam que não és bonita, tu és... mas só vais entender isso depois de perceberes que não é só a magreza que pode abalar geral.
     Falando em magreza, depois dos teus 5 anos vais ganhar peso. Muito peso. Não destrói tuas mãos batendo nos coleguinhas de escola por isso, tua mãe vai padecer demais a cada sinal de saída na escola. Usa tua inteligência pra "quebrar" eles. E não esquece: gaúchos não são burros, apenas não falam "você"... um dia vais ter tanto orgulho disso que as pessoas que não falam como tu falas vão te odiar.
     Na adolescência, te mantem com a tua cabeça, vais te dar muito bem se fizeres isso. Não segue os conselhos de quem vai quebrar a cara. Mesmo que te ridicularizem por isso, um segredinho, aqui entre nós: todos os/as "populares" da tua escola não vão ter o happy ending que vais ter. Não deixa que as palhaçadas que te dizem te abalem. Não vão abalar. Teu nome não é Carrie, mesmo que um dia te sintas na pele dela quando chegares aos 16, isso passa.
     Entende uma coisa: teu lugar favorito vai ser sempre dentro da tua cabeça, mesmo quando ela tá virada em um campo de guerra. Vais ter longos dias e belas noites socada dentro do teu quarto, olhando pro teto, ouvindo música e fazendo mil e um labirintos mentais na procura de ti, revirando baús de lembranças, escrevendo poemas e histórias mentalmente ... ou só pensando mesmo. Tua dispersão vai ser uma das tuas características mais fortes, lide bem com isso. Ah, e matar pessoas mentalmente é bem legal sim, não fica te culpando por isso.
     Segredos, todas as pessoas tem os seus. Tu também vais ter os teus, não compartilha eles com ninguém se não queres que as pessoas saibam. Quem tu achas que é "melhor amigo" também tem alguém que ele acha que é "melhor amigo". Todas as pessoas tem "melhores amigos". Um segredo deixa de ser um segredo quando alguém além de ti ouve ele. Vais ter teus segredos bem guardados graças ao teu aprendizado sobre as falsas amizades e sobre individualismo.
     Papéis, papéis, papéis... não são um problema mental digno de psicólogos... tu vais ser aficcionada por papel e lápis, vais escrever quilômetros e quilômetros de palavras. Escreve tudo que te der na cabeça, é teu escape do mundo que tanto te incomoda. Outro segredinho: teus diários vão ser iniciados no momento que adquirires escrita. E tu vais te orgulhar muito disso.
     Não sofre por antecipação... tu vais fazer muito ao longo da vida, entende que enquanto  a tragédia não aconteceu, ela ainda não é uma tragédia. Mas te conforma cedo com o que te incomoda e tenta esquecer, tua memória vai ser tua maior aliada e tua maior inimiga durante a vida inteira. Ninguém lembra eternamente uma dor, um dia ela passa e a gente esquece como foi. Acredito que nunca vais entender isso.
     E por último, e mais importante: te deixa levar pelo vento, não te reprime tanto. Não te desacredita tanto, isso vai te podar as asas. Não te azeda tanto, não podes ser  uma velha de 90 anos aos 20, só porque a vida não é como tu idealizou. Lembra do "não"? Pois é, nem depois de 100 anos vais aprender a lidar com ele. Mas não deixa ele te esmorecer.


Tenhas uma boa jornada, pistoleirinha...
Longos dias e belas noites,
Debora, aos 25.

Um comentário:

Carol Araújo disse...

Me identifiquei em vários trechos... escreve muito bem querida