5 de jan de 2012

Curriculum Vitae

     Tenho andado numa fase de auto-análise, de olhar pra dentro, de tentar me achar. Na realidade sempre estive, nunca deu em nada, mas eu sigo inquieta. E é por essas e outras que tenho publicado tantos textos voltados pra mim mesma e com uma postura mais séria se comparada à postura que eu apresentava no começo do blog. Acho que a tal maturidade anda batendo à minha porta e, ao que parece, eu estou deixando ela entrar. Não que me agrade esse ar sério que tenho tomado diante de mim mesma... mas o tempo se encarrega de endurecer o que já foi mais flexível.
      Chega de apresentações... o fato é que a temporada de formaturas está aberta e cada vez que participo de uma formatura me voltam mil e um tópicos à cabeça. Quais? Um Curriculum Vitae de verdade, não aquele que só se baseia em papéis conquistados a custa de muito estudo/esforço, mas um curriculum que contempla a vida em si. Qual o teu currículo de vida? Já pensaste nisso? O que já fizeste de bom e mau que nunca ninguém vai tomar por quesito avaliativo, seja numa entrevista de trabalho, seja pra um concurso? Eis o meu:

     Eu sou a Debora-sem-acento-e-sem-agá, abelha em hebraico, nascida em um sábado de 1986. Sim, nasci no final de tarde do sábado, pra ferrar com qualquer festa que meus pais pretendessem. Como primogênita, dei à minha mãe todos os dissabores da maternidade, incluindo o direito ao choro. Não o meu, o choro dela, que por vezes pensava que não daria conta de cuidar da vida que tinha trazido ao mundo. Mamãe, acalma teu coração nervosinho, tu conseguiste. Aos seis meses eu já dava os meus primeiros passinhos e, como primeira estripulia, joguei uma cestinha de vime na cabeça do meu pai. Com um ano eu falava, andava e contava até 10. Pulando como uma pulga, mas contava.
     Cedo comecei a fazer aulas de balé. Parei aos 6 anos, depois de 4 anos de "pliê" e "elevê". Entrei na escola aos 5 anos, já sabendo escrever meu nome e tocando terror na torcida (um dia conto minhas histórias de escola, e não são poucas). Quase reprovei no JARDIM por ser uma aluna indisciplinada. Mas o que eu queria pintando bonequinhos quando eu já sabia ler e escrever na metade do ano? 
      Nos 5 anos que morei em São Paulo fui a maior ativista pró-gauchismo e pró-gordice que aquela cidade bizarra já viu. Brigava horrores pra defender meu direito de falar "tu" e meu direito de ser a gorda que sempre fui. Isso me rendeu muuuuuiiiitas sentadas no banquinho do santo lá da escola. Sei lá que santo era, mas muito sentei lá pra refletir sobre minhas atitudes violentas em relação aos meus coleguinhas.
     Aprendi a ler por conta. Meu pai me ensinou as letrinhas e, num domingo de sol, eu queria que alguém me lesse um gibi do Chico Bento e como o babado na TV estava fortíssimo, não fui atendida. Me tranquei no quarto e não saí enquanto não li uma página inteira. Com o cérebro exausto, saí aos berros: EU LEIO! EU LEIO! A maior emoção da minha vida até então, ler sem auxílio. Uma criança dessas não dá certo no meio das outras. E eu era avaliada pelo meu desempenho pintando boboquices e me comportando como uma apalermada. Não por eu saber ler e escrever.
     Fui Miss Caipirinha em 1995. Meu momento de glória no Ensino Fundamental. Ganhei uma faixa e uma bola de vôlei vagabundona, mas pra mim aquilo era o maior prêmio que alguém poderia conquistar. Eu deixei de ser a baderneira da classe por uma noite de festinha junina pra voltar a sê-la na segunda-feira seguinte. Grande feito pra mim, tenho a minha faixa até hoje.
     Aos 10 anos tive um choque de realidade. Eu e minha família passamos por problemas financeiros brutais de 1996 em diante. Eu aprendi a lidar com o não ter na forma mais prática e pura que eu poderia ter aprendido. E foi bom, eu descobri que não era o dinheiro que movia a minha felicidade. Sou grata pelo fato de a vida ter me ensinado lições, como a simplicidade, cedo. E por eu ter recebido do universo pais que sempre foram amorosos e nunca descontaram nos filhos as frustrações profissionais e financeiras. Crescer em um lar de amor foi fundamental pra construir o que sou hoje, mesmo eu sendo a monstra que sou.
     Fiz teatro, artesanato, cantei em coral, participei de grupos de poetas, fui campeã de caçador e vice-campeã de futebol na escola, ganhei concurso de escultura na areia e gincanas, fiz cursos profundíssimos sobre várias religiões. Fui evangélica, mórmon, católica, visitei umbanda e kardecismo. Fui fã de Hanson, Leonardo DiCaprio, KLB e Reação em Cadeia (dessa até presidente de fã-clube eu fui).
     Aos 14 anos entrei em sala de aula como professora pela primeira vez e nunca mais saí de lá. Já tinha querido ser dentista, cantora, atriz, advogada, bióloga, nada... mas sempre quis ser professora. Aos 17 concluí o curso de magistério com êxito. Era professora, oficialmente.
     Aprendi sozinha meu inglês, meu croché, meus amigurumis e os EVAs 3d. Aprendi e compartilhei o que aprendi. A vida foi boa comigo, sempre me deu o que eu queria, não tem porque eu ser egoísta. 
     Sempre li muito, independente de quando. Pra mim e pros outros. Nunca privei alguém do que eu lia, mesmo quando era chatíssima lendo coisas que só eu gostava. Que o diga minha mãe enquanto fazia o almoço comigo correndo na barra da saia dela grudada em algum livro e lendo em voz alta toda emocionada alguma coisa que pra minha mãe não fazia diferença nenhuma. Obrigada mamãe, por ter sido sempre tão compreensiva e apoiadora.
     Já tive várias facetas: poeta, cantora de chuveiro, escritora de diários, atriz de teatro escolar, lunática, cachaceira, nerd, cdf, magra, gorda, nadadora, ciclista, patinadora, punk, pink, metaleira, água com açúcar, bruta, chorona, protetora, estúpida, amável, briguenta, pensadora, explosiva, extrovertida, tímida, cara de pau, boa moça, sem-vergonha, conservadora, mente aberta, tudo e nada.
     Fui babá, dama de companhia de idosas com Alzheimer, vendi toda a sorte de muamba por catálogo, estagiei como secretária, recepcionista, professora. Vendi material de Sex Shop, croché, lingerie, natura, avon, prata, bijouterias, e mais uma infinidade de coisas. Dei aula voluntária, particular, na igreja e pras colegas de trabalho da minha mãe.
     Fiz minha faculdade custeada pelos meus estágios e meus "bicos". Me orgulho disso. Me orgulho de cada momento dentro daquela instituição. Inclusive os momentos de desespero em que pensei em desistir do curso por incompreensão de determinados professores "doutores". Fiz mil e um cursos na minha área estando lá dentro. Soube aproveitar cada oportunidade e me instrumentalizei muito, até mais do que realmente precisava. Fui até membro do D.A. de Letras por 2 anos.
     Obviamente que um dos meus estágios foi totalmente fora do que o mundo acadêmico aceitaria, mas achei uma orientadora que me deu toda a credibilidade do mundo e encarou comigo quando inventei de dar aulas de escrita criativa em um projeto extraclasse na escola em que trabalho. Foi o meu ápice em tudo que construí ao longo do meu caminho. Foi o momento em que toda a minha bagagem foi canalizada em algo que eu sabia como fazer. E eu nem sabia disso.
     Me formei trabalhando na área, não caí no mundo dos desempregados... mas não me esqueço a via-crúcis que foi chegar ao emprego que tenho agora. De tudo isso que contei, o que eu poderia contar como curriculum pra um emprego? Oi, eu sou a Debora, tenho 19 anos, sou formada em Magistério e Letras  Português/Inglês, tenho também alguns cursos na área de Literatura, de Língua Portuguesa e cultura canadense. Ponto. E todo o resto do meu caminhar? E todas as histórias que eu tenho pra contar? E tudo que vivi e que me fez ser o que sou hoje em dia? Nada disso conta? Ao mundo que vivemos não. Mas enquanto humanos sim.


     O que quero dizer com toda essa novela é que, por mais que a gente se "desbaratine" de vez em quando porque o mundo bate portas na nossa cara, não é um formato fixo e inflexível que vai avaliar o ser humano que se é. O que a gente leva por dentro é maior que isso tudo e temos que aprender a valorizar isso mesmo quando dói mais forte.
     Muitos amigos meus se sentiram tristes pelas notas do ENEM e se desacreditaram. Enfiem uma coisa na cabeça de vocês: vocês são mais do que uma prova mal formulada, a história e o caráter de vocês fala mais alto que isso. Tudo bem que isso não faz com que vocês passem no ENEM. Mas também lembra que vocês não são um fracasso da natureza, como gostam de se avaliar.
     Tenho conhecidos desempregados que se revoltaram. Recado: isso passa. E quando passar vocês vão ter apenas uma vaga lembrança do período sombrio que foi a busca por um emprego. Digo por mim, que por um bom tempo pirei desempregada e hoje em dia tenho o emprego que sempre quis. Relaxem, o universo vai dar voltas e voltas, mas vai encaixar vocês num local que o "perfil" de vocês seja acolhido com prazer.


    O que está por dentro é o que importa. Esqueçam os papéis e as máscaras.

2 comentários:

Carol Araújo disse...

Como eu gosto das coisas que a minha amiga virtual escreve... Concordo com o que o Eduardo falou no Face, você deveria divulgar seu Blog sim!
Beijos

Paulo Olmedo disse...

tri o post e a proposta. gostei até da parte de auto-ajuda ali embaixo (huahuauahuahua sacanagem)

o que somos lattes nenhum tem espaço pra registrar.